segunda-feira, 9 de novembro de 2009

OFICINA SOBRE OYÁ – MORTE E ANCESTRALIDADE – PARTE 2

DATA: 28 de novembro de 2009 – das 14h às 18h

LOCAL: sede municipal do PT/RS (João Pessoa, 785) – Porto Alegre

INSCRIÇÕES: evento gratuito e aberto

MATERIAL PARA ESTUDO PRÉVIO:
Disponível na pasta “Egbé” no xerox Toka da Cópia (Riachuelo, 1426):
- "Mitos Yorubás" de José Beniste: "Por que Oya se tornou a dona do cemitério" e "A rivalidade de Ogún e Sángò pelo amor de Oya";
- Capítulos 6 e 10 de “Os Nagô e a Morte”.

PROGRAMAÇÃO:
- Leitura coletiva e discussão dos textos;
- Apresentação do documentário Gayaku Luiza: Força e Magia dos Voduns;
- Dinâmica de grupo;
- Orins (cânticos).

INFORMAÇÕES:
matrizafro@yahoo.com.br
F: 8155.1833 / 9323.0459

sábado, 24 de outubro de 2009

II Seminário Estadual de Estudos das Religiões de Matriz Africana – Ancestralidade e Cidadania

Data: 07 de novembro de 2009
Horário: das 9h às 18h
Local: Sindiserf/RS – Rua Gal. Bento Martins, 24, sala 901, Centro de Porto Alegre
Inscrições e informações: 8155.1833 / 9323.0459 ou email matrizafro@yahoo.com.br
Clique aqui para baixar a ficha de inscrição
Investimento: R$10,00, com obtenção de certificado.
VAGAS LIMITADAS. GARANTA A SUA!

Programação:

9h - Inscrições e acolhimento
9h30 - Dinâmica – Cântico a Olodumare
9h50 - Abertura
• Egbé/RS
• Sindiserf/RS

10h - Cidadania e Educação
Pedagogia do Àse e a experiência no EJA
Cláudia Adereniké Freitas
Pedagoga, Coordenadora Pedagógica do Egbé Òrun-Àiyé/RS e Omorixá do Ilê Ogun Onire e Oyá Niké.

10h30 – Corporeidade e Concepção de Vida e Morte
Babá Xandeco de Xangô
Babalorixá e líder comunitário, dirigente da Associação Clara Nunes

11h - Debate
12h – Jeun (almoço)

14h – Ancestralidade e Resistência
Construção da identidade da mulher negra no terreiro de matriz africana
Caroline Oyanireti Silva
Mestre em Serviço Social, Educadora Social do projeto Ori Inu Erê e Omorixá do Ilê Axé Yemojá Omi Olodô

14h30 – Cidadania e Resistência
Relatos sobre a Marcha em Defesa das Religiões Afro pelo Brasil e outras formas de resistência e enfrentamento
Vanessa Efunpàdé Martins
Jornalista, Coordenadora de Comunicação do Egbé Òrun-Àiyé/RS e Iyalaxé do Ilê Ogun Onire e Oyá Niké.

15h - Debate

15h30 – Rememorando a ancestralidade afro-gaúcha com Mestre Borel

16h15 – Apresentação do projeto Ilu Bata - Ori Inu Erê

17h – Dinâmica de grupo e encerramento

17h30 - Entrega dos certificados

sábado, 17 de outubro de 2009

Manifesto do Egbé/RS pelo respeito às religiões de matriz africana

Nós, estudantes, pesquisadores, multiplicadores e vivenciadores da religião de matriz africana, integrantes do Egbé Òrun-Àiyé/RS, vimos a público manifestar nossa indignação em relação à matéria veiculada no dia 11 de outubro de 2009, no programa Teledomingo da RBS TV, em que pretendia desvendar “mistérios das religiões afro-brasileiras”. De maneira irresponsável e desrespeitosa, a referida emissora de TV permitiu que imagens de rituais de diferentes religiões, com processos históricos e pressupostos teológicos completamente distintos fossem editadas de tal forma que, quem assistisse, pudesse supor que se tratavam da mesma concepção religiosa e, mais grave ainda, com uma abordagem preconceituosa, racista e vazia de significados e de contextualização.
Os integrantes do Egbé Òrun-Àiyé/RS – Associação Afro-brasileira de Estudos Teológicos e Filosóficos das Culturas Negras do Rio Grande do Sul, organização não-governamental e sem fins lucrativos, que tem entre seus objetivos estatutários promover o ensino, o estudo e a pesquisa científica acerca dos pressupostos teológicos e filosóficos da Cosmovisão Africana; defender a liberdade religiosa, bem como atuar contra a intolerância religiosa e contra o processo de afrotheofobia que se avoluma no país; impetrar ações judiciais contra publicações e veiculações nas mídias que, de maneira explícita ou implícita, vilipendiem, agridam, difamem ou negativamente se refiram às Religiões de Matriz Africana e Afro-Brasileira, atribuindo-lhes índole maléfica; entre outros objetivos, manifestam:
1. O negro no Rio Grande do Sul, em que pese seu papel fundamental na construção, constituição e formação cultural e social deste Estado, sempre sofreu e ainda sofre perseguições de cunho racista e discriminatório em relação à sua cor de pele e, fundamentalmente, em relação às suas manifestações culturais e religiosas, como a invisibilidade e ausência de Políticas Públicas que incluam as casas e/ou comunidades-terreiro de religião de matriz africana; as repetidas medidas judiciais e legislativas que atentam contra a liberdade de culto assegurada pelo artigo 5º da Constituição Federal; entre outras formas de violência simbólica;
2. As igrejas neopentecostais ou eletrônicas no Brasil têm apresentado um crescimento espantoso no Brasil nas últimas décadas, e seus fiéis tem avançado cada vez mais em todos as esferas de poder do país, seja no meio empresarial, no terceiro setor, nas instituições do Estado como Judiciário, Executivo e sobretudo nos Legislativos municipais, estaduais e federal. Mais preocupante ainda é a tomada de concessões públicas – os meios de comunicação – de diversas mídias: rádios, jornais, internet e televisão, que tornaram-se meio principalmente de divulgação da teologia do mal, em que as religiões de matriz africana são demonizadas e transformadas em alvo de uma guerra santa impetrada pelos líderes de tais igrejas;
3. Os religiosos de matriz africana, tendo outra forma de organização e de articulação, silenciosos em seus terreiros onde se dedicam a atividades de promoção da saúde metal, física e espiritual dos vivenciadores da tradição dos Orixás, Inquices e Voduns, mesmo sendo detentores de saberes e tradições milenares e constituidoras da civilização humana através de seu berço africano, estão se tornando reféns do desrespeito à sua condição, da intolerância religiosa, do racismo e da gananciosa disputa pela busca de seguidores, considerados futuros dizimeiros e mão-de-obra barata destas instituições;
4. Por outro lado, cabe salientar que as religiões de matriz africana descendem de sociedades africanas em que a palavra falada é o veículo principal de sabedoria e de axé (poder/energia), portanto, é através da oralidade que se perpetuam os rituais, transmitidos e praticados dentro de um compromisso com seu transmissor. Ocorre que, pessoas mal preparadas ou mesmo inescrupulosas, aproveitam-se das lacunas desta oralidade para intitularem-se sacerdotes e utilizam práticas que não dizem respeito à tradição. A partir disso, é preciso que se esclareça a sociedade sobre as diferenças entre as práticas originais e comprometidas com a tradição de matriz africana e as demais concepções originadas de outras culturas não-africanas ou indígenas e, portanto, exógenas e antagônicas às religiões de matriz africana;
5. Diante do exposto, ressaltamos nossa indignação em relação ao referido programa de televisão que não levou em consideração a luta contra intolerância religiosa e o racismo por que passam as religiões de matriz africana no Brasil e, especialmente no Rio Grande do Sul, configurando assim um desserviço à cultura e à informação do povo gaúcho, objetivos que deveriam ser perseguidos por esta instituição de mídia por se tratar de concessão pública. Acreditamos que, com o esforço desta geração de vivenciadores das religiões de matriz africana e das anteriores que nos trouxeram até aqui, possamos conscientizar a sociedade gaúcha e brasileira de que os terreiros são detentores de sabedoria ancestral milenar, promotores de saúde integral, espaços de transmissão das culturas negras, de desenvolvimento intelectual, moral e espiritual da pessoa humana, preservadores e adoradores da natureza e de todos os seus elementos – animais, plantas, águas, minerais, etc, espaços de convivência comunitária e familiar, ou seja, lugares sagrados e dignos de respeito como qualquer outra cultura.

Porto Alegre, 13 de outubro de 2009.


Assinam os membros do Egbé Òrun-Àiyé/RS:
Vanessa Efunpàdé Martins – Yalaxé, jornalista e coordenadora de comunicação

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Oficina sobre Oyá - Morte e Ancestralidade

O Egbé Òrun Àiyé/RS realiza no dia 24 de outubro, sábado, das 14h às 19h, Oficina sobre Oyá com o tema: Morte e Ancestralidade. As inscrições são gratuitas e abertas. Participe!

Informações: matrizafro@yahoo.com.br

Atenção: o material para leitura prévia encontra-se na Toka da Cópia, na pasta EGBÉ (Riachuelo, 1426, próximo à Borges, em Porto Alegre). São os textos:
1) Conceitos de vida e morte no ritual do axexê: tradição e tendências recentes dos ritos funerários no candomblé, de Reginaldo Prandi;
2) O Lessayn: o coração de um terreiro de Egun, de Fábio Velame, da UFBA;
3) Os Nago e a Morte, de Juana Elbein dos Santos, capítulos 6 e 10.
Quem desejar pode pedir os ítens 1 e 2 por email.





terça-feira, 29 de setembro de 2009

Egbé/RS convida:



II Seminário Estadual de Estudos das Religiões de Matriz Africana
>> Ancestralidade e Cidadania <<

Dia 7 de novembro - das 9h às 18h

Informações: egbeorunaiye@yahoo.com.br
Aguarde em breve a programação!


domingo, 20 de setembro de 2009

Grupo de Estudos do Egbé/RS realiza:

>> Oficina sobre Ogun - Parte II <<
Tema: Sacralização de animais e sua fundamentação teológica
26 de setembro de 2009 – sábado

LOCAL: Auditório do PT Municipal, João Pessoa, 785, Porto Alegre

INSCRIÇÕES: evento aberto e gratuito

INFORMAÇÕES:
Fones: (51) 8155.1833
egbeorunaiye@yahoo.com.br
http://egbeorunaiye.blogspot.com

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Grupo de Estudos do Egbé/RS realiza oficina sobre Ogun



Para a tradição da religião de matriz africana do Rio Grande do Sul, o ano de 2009 é regido pelo Orixá Ogun – desbravador, senhor das estradas, da agricultura e da tecnologia. Além disso, este Orixá é um dos mais populares do Brasil, sendo louvado de norte a sul do país, já que foi sincretizado com um santo católico não menos popular: São Jorge.
Para entender estas e outras particularidades de Ogun é que o Grupo de Estudos do Egbé/RS vai reunir vivenciadores da religião dos Orixás e estudantes no dia 23 de maio para juntos, discutir mitologia, história, cultura, tradição e teologia que envolvem esta divindade. A atividade é gratuita e aberta, mas é necessário fazer a leitura prévia de textos e assistir um vídeo disponível na Internet.
O Grupo de Estudos do Egbé/RS é um projeto da ONG Egbé Òrun-Àiyé, seção Rio Grande do Sul, formada por sacerdotes e vivenciadores das religiões afro-brasileiras, e que estuda e promove a Teologia e a Filosofia de Matriz Africana em todo o Brasil.

PROGRAMAÇÃO – 23 de maio de 2009

9h – Inscrições
9h30 – Recepção dos participantes e cântico à Olodumare e à Ogun
10h – Introdução ao debate – Mostra de vídeo
10h50 – Intervalo
11h – Discussão dos capítulos III e IV do livro: "Yorùbá: Tradição Oral e História", de Olúmúyiwá Anthony Adékòyà
12h – Intervalo para Ajeun (almoço)
13h30 – Dinâmica de grupo
14h30 – Discussão do texto “Ogum, a forja da solidão”, de Paulo Botas
15h30 – Intervalo
15h45 – Dinâmica: intervenção sobre Orikis de Ogun
16h30 – Discussões finais e encaminhamentos
17h30 – Cântico a Olodumare e de agradecimento
18h - Encerramento

Material de estudo encontra-se na Toka da Cópia (Riachuelo, 1426, pasta Egbé).
Acesse o vídeo AQUI:
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL708066-15607-161,00.html

INFORMAÇÕES:
egbeorunaiye@yahoo.com.br
Fones: (51) 8155.1833 / 9323.0459
http://egbeorunaiye.blogspot.com


SERVIÇO
ENCONTRO DE ESTUDOS EGBÉ/RS – OGUN PARTE 1
DATA: 23/05/2009
HORÁRIO: das 9h às 18h
LOCAL: Travessa Francisco Leonardo Truda, 40, sala 08, sobreloja, Centro de Porto Alegre
INFORMAÇÕES: egbeorunaiye@yahoo.com.br, Fones: (51) 8155.1833 / 9323.0459
http://egbeorunaiye.blogspot.com
INSCRIÇÕES: evento aberto e gratuito


Foto: Ogun, de Pierre Verger, do livro "Orixás"

quarta-feira, 11 de março de 2009

Os Ritos de Bori

Respectivamente uma “Obrigação” é um vínculo de energia a um terreiro que cultue santos de origem de religiões de matriz africana, é um cordão umbilical espiritual, pois o axé permanece independente da pessoa afastada ou não.Nas religiões de matriz africana, há sempre uma explicação teológica, um fundamento para os ritos a serem difundidos, mesmo sendo o ato ritualístico mais irrisório. A herança filosófica deixada pelos antigos ancestrais africanos pouco é usada nos terreiros, mais aqueles que a usam tem em mãos uma infinidade enorme de axé proporcionado principalmente pela individualidade de cada ser. Sendo que os termos, os provérbios, os itans todo esse conjunto de cultura ontológica africana realçam situações que simbolizam nosso cotidiano, e muitos servem como respostas para a vida intensa em que vivemos.Hoje há milhares de adeptos e simpatizantes que procuram um terreiro para um conforto espiritual, um local de repouso da aura, algo em se aportar e obter respostas do desconhecido. A primeira ação para aqueles que querem se veicular a uma casa de Orixá em questão de axé, com maior comprometimento após a lavação de “Ori” (cabeça) é o rito de “Bori”.Bori – ato de dar comida ao “Ori".“ Ori “é a denominação dada a “cabeça” física. Na maioria das esculturas africanas, tradicionais a cabeça é a parte mais proeminente porque, na vida real, é a parte mais vital do corpo humano, ela contém o cérebro, a morada da sabedoria e da razão. Os olhos, a luz que ilumina os passos do homem pelos labirintos da vida. Os ouvidos com os quais, o homem escuta e reage aos sons. A boca com o qual ele come e mantém o corpo e a alma juntos.

“ Ori “ é todo o axé que uma pessoa tem , e sua sede é na cabeça, é ela que realmente vem em primeiro em lugar ao mundo e abre caminho para trazer o resto do corpo, além também de ser a consciência dos principais sentidos físicos. Particularmente os Iorubas tem como crença que ao nascer, cada ser humano escolhe sua cabeça, seu “Ori”, ao modo que seu destino, assim como sua sorte e inúmeras de suas caracteristícas pessoais dependem da individualidade de cada um. As tradições revelam que, após a modelagem de cada futura pessoa por Orixalá, é convocado “Ajalá” um antigo orixá que tem como tarefa fornecer o “Ori,” cada ancestral divinizado cede as substâncias necessárias para aperfeiçoar a forma das cabeças.

Essas substâncias são denominadas “Oke iponri”, que passam a acompanhar a pessoa todo o tempo de sua existência e merecedoras de respeito e culto. Mas “Ajalá”, mesmo sendo um orixá, tem suas deficiências é esquecido e descuidado, e nem sempre as cabeças que ele faz, saem boas. O resultado é que a maioria das pessoas que escolhem por si mesma as cabeças sem recorrerem a “ Ajalá”, acabam escolhendo cabeças ruins e imprestáveis.
A interpretação para este fato “itan” refere-se ao produto final que é o homem, que terá uma tarefa árdua e bem complicada para enfrentar quando chegar a terra. Em razão disto “Olodumaré”, ordena sempre a “Orunmilá” para ensinar aos seres humanos a estabelecer o ponto de equilíbrio necessário em suas cabeças.Assim nascerem os ritos de “bori”, sempre determinados por “Orunmilá”, através dos sistemas divinatórios, sendo que um homem com uma cabeça bem feita será bem sucedido em todas as diligências da vida.No jogo de búzios é determinado o Orixá dono de seu “Ori” e os ritos iniciáticos a serem precedidos para elaboração do fundamento denominado “Bori".
O “Ori” é o elemento mais importante de cada personalidade individual, tal conceito é básico para o entendimento da filosofia de vida, pois ajuda a explicar acontecimentos que de outra maneira se mostram incompreensíveis como a morte súbita, o sofrimento e a boa sorte do homem, retirando em grande parte dos seres humanos a responsabilidade pelo seu fracasso ou sucesso, libertando-os de qualquer sentimento de culpa e desânimo. Torna-se importante para essas pessoas consultarem os oráculos de Ifá de tempos em tempos a fim de acompanhar o verdadeiro caminho de seu destino.

Eduardo de Òsàlá - Babalorisá "Ilè Asé Omi Òrìsá"
vice-coordenador - Egbe RS

fontes:"Òrun Aiyé" - José Beniste.
"Iemanjá" - Armando Vallado.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

EXU: RUAH, PNEUMA, ESPÍRITO SANTO







Comunicação, princípio, movimento, provocador de situações.
(Mãe Stella)




Aos que acreditam na irreverência da vida.




Os leigos na religião dos orixás, imersos no simbolismo do mal construído pelas igrejas e pelos detentores do poder durante a escravidão, aprenderam a conferir a Exu o princípio demoníaco da feitiçaria, da bruxaria e da maldade. No entanto, se lermos as poesias e as narrativas sobre Exu vamos mergulhar na profunda espiritualidade deste orixá, a qual é vital para nossas travessias e desafios. Longe de ser o diabo, Exu é o princípio dinâmico de comunicação e individuação, o princípio da existência cósmica e humana. Ele é o princípio que representa e transporta o axé (força vital), que assegura a existência dinâmica, permitindo o acontecer e o devir. Ele traduz aos homens as palavras dos orixás e simboliza a descendência, a intercomunicação, a participação. É ainda o símbolo da sexualidade e da fertilidade. Ele está ligado ao destino dos homens e mulheres e de tudo o que é vivo e tem vida. Na teologia tomista existe o conceito de “eidade”: tudo tem a sua razão ôntica, de ser. Todas as coisas têm, em potência, tudo aquilo que necessitam para serem o que realmente são. Este é o princípio de Exu: possibilitar que as coisas venham a tornar plena a sua vida interior: a sua “arvoreidade”, a sua “pedraeidade”, a sua “aguaeidade”, a sua “fogoeidade”, o seu “amoreidade”, etc...
Exu responde, no mais fundo de nós mesmos, pelo movimento da vida, introduzindo o acaso e a sorte no destino dos homens e mulheres; rompendo os modelos conformistas do universo, as psicologias do “ajustamento”; e nos levando aos desafios do novo e da desordem e da possibilidade permanente de mudanças. Ele nos questiona permanentemente, aos nos revelar que o mundo é produzido e que pode ser produzido de maneira diferente. Indaga-nos pelas nossas utopias e esperanças e nos mostra a fragilidade das nossas tentativas de criar sistemas e estruturas definitivas onde a vida fica limitada e sem horizontes.
Exu nos mostra que somos inefáveis como Deus, e como inefáveis somos a encarnação do desafio e da irreverência (ele troca o sol pela lua, etc); ele permite aos homens e mulheres a possibilidade de autodeterminação, de exercer o pensamento divergente, de confrontar as interdições sociais que limitam o gozo da liberdade. Como princípio dinâmico é o-não-ainda-possível.
Exu é o pai da luta: duelo e desafio. A vida é luta, e a solidariedade para a vida é luta e se faz na luta. O que mais une os homens e mulheres, uns com os outros, são duas discórdias, quando as diferenças são respeitadas e confrontadas. O que mais une cada um de nós conosco mesmos, o que faz a unidade íntima de nossa vida são nossas discórdias íntimas, as contradições interiores de nossas discórdias. Só se esta em paz consigo mesmo para morrer.
O modo de viver e de lutar e de lutar pela vida e viver da luta é duvidar.
E o que é dúvida? Dubitare contém a mesma raiz, a do numeral duo, dois, que duellum, luta. A dúvida, mais que a pascaliana, a dúvida agônica ou polêmica, que não a cartesiana ou dúvida metódica, a dúvida de vida – vida é luta – e não de caminho – método é caminho – supõe a dualidade do combate.
Exu é o entusiasmo permanente de vida e luta. É entusiasmo no seu verdadeiro significado é o mesmo que endeusamento. O entusiasta é um endeusado, o que plenifica de Deus. Por isso Exu é a quem se devota afeição e amizade, a quem se confia os segredos mais íntimos e as promessas e pedidos a serem atendidos. Ele é a encarnação do entusiasmo e do endeusamento. Tudo o que existe tem o seu Exu, porque tudo tem vida e participa intimamente desta força vital de Deus.
Se Exu, no culto de Ifá, “fala” pelos odus – palavras dos orixás – traduzindo-as para os homens e mulheres, no domínio de Ossaim é quem abre as portas para que cada orixá – que tem as suas próprias folhas – possa fixar-se na cabeça – ori - dos seus filhos e filhas. No reino dos Egum é quem permite a passagem deles para o corpo das crianças que vão nascer... Não há morte nesta teologia, mas uma transformação permanente de vida em busca da plenitude e da ancestralidade.
Nenhum transe místico se realizaria no candomblé se não fosse primeiramente celebrado o seu padê, se não lhe tivessem pedido que levasse aos orixás o desejo dos homens e mulheres, convidando-os para virem dançar nas festas.
Nesta dimensão, o tempo de Exu é o tempo oportuno – Kairós -, o aqui-e-agora: o axé hic et nunc. Os orixás dançam e celebram com seus filhos e filhas naquele exato momento, e a troca da força vital é realizada na relação comunitária, religiosa, na qual cada gesto, dança, canto e comida são prenhes de significado e de vida.
A representação simbólica de Exu com chifres talvez possa ter influenciado, pelo ideário caricato das igrejas, a sua identificação com o diabo. Esta representação, no entanto, é anterior à construção do Antigo Testamento, cujo livros foram escritos após o Exílio e que, com certeza, tiveram toda a influência dos símbolos e arquétipos africanos.
O chifre tem o sentido primitivo de elevação e seu simbolismo é o poder: “Farei germinar um chifre, um corno para David” (Sl 132.17). Ele simboliza a força de Deus e evoca o prestígio da força vital (axé), da vida inesgotável e das grandes divindades da fecundidade: “Me resguardo Nele, meu escudo e meu corno de salvação” (Sl 18.4).
O cosmos, segundo a teologia iorubana, está dividido em quatro compartimentos e é a criação de um único Deus: Olorum. É preciso que a divisão não suprima a unidade e que os quatro compartimentos se liguem entre si. É Exu quem abre as portas e traça os caminhos e cuja missão é criar aberturas entre os quatro reinos, furar as paredes que os separam uns dos outros, fazendo-os entrarem em comunicação por seu intermédio e assegurando, assim, a união cósmica.
Os quatro cornos dos altares dos holocaustos situados no Templo designam as quatro direções do espaço: a extensão ilimitada do poder de Deus. Carl Yung aponta a ambivalência no simbolismo dos cornos. Eles representam um princípio ativo e masculino, por sua forma e por sua força de penetração, e um princípio passivo e feminino por sua forma de lira e de receptáculo. O ser humano, reunindo ambos os princípios na formação de sua personalidade e assumindo-se integralmente, chega à maturidade, ao equilíbrio e a harmonia interior.
Èsù fi ire bò wá o.
Exu faça a nossa vida plena das coisas boas.
No hebreu, Ruah – traduzido para o grego Pneuma – significa sopro, hálito, ar, vento e alma. Nas 378 vezes que o termo é empregado no Antigo Testamento, ele é distribuído em três grupos de igual importância:
É o vento, o sopro de ar;
É a força viva com o homem, princípio de vida (hálito), sede de conhecimento e dos sentimentos;
É a força de vida de Deus, pela qual age e faz agir tanto no plano físico quanto no espiritual.
No grego profano e no uso filosófico, pneuma exprime a substância viva e geradora nos animais, nas plantas e em todas as coisas. Na Bíblia o ruah-sopro não é desencarnado, pelo contrário, é a animação do corpo. Se o mundo cultural grego pensa em categorias de substância, o mundo judaico pensa em força, energia e princípios de ação. O espírito-sopro é o que age, faz agir, e em se tratando do Sopro de Deus anima e faz agir para realizar o desígnio de Deus. É sempre uma energia de vida. A espiritualidade não consiste, então, em se tornar imaterial, mas ser animado pelo Espírito Santo e, por que não dizer, o axé de Exu?
Este ruah-pneuma é o vento: “sopra onde quer e como quer, ninguém sabe de onde vem nem para onde vai” (Jo 3.8); é o hálito de Deus que comunica a vida: “ o céu foi feito com a palavra de Javé e seu exército com o sopro de sua boca” (Sl 33.6); o hálito do homem e da mulher, princípio e sinal de vida: “morreu tudo o que tinha um sopro de vida nas narinas” (Gn 6.22); e a animação que realiza uma obra: “eu o enchi com o espírito de Deus em sabedoria, habilidade e perícia para toda espécie de trabalho” (Ex 31.3).
O Sopro recebe diversas qualificações, segundo os efeitos dos quais é o princípio: espírito de inteligência (Ex 28.3); de sabedoria (Dt 31.3); de ciúmes (Nm 5.14); de ódio (Jz 9.23); de prostituição (Os 4.12); de impureza (Za 13.2); de justiça (Is 28.6) e de súplica (Za 12.10). O Antigo Testamento hesita em associar os espíritos perversos a um outro que não seja Deus: “Suscitou Deus um espírito de aversão” (Jz 9.23); “O espírito maligno da parte do Senhor tornou sobre Saul” (1 Sam 19.9); “Eis que o Senhor pôs o espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas e o Senhor falou o que é meu contra ti” (1 Rs 22.23).
Quando o mau espírito da parte de Javé se apossou de Saul, ele procurou transpassar David, que tocava sua lira, com a sua lança. David desviou e a lança de Saul ficou cravada no muro. David fugiu ajudado por Micol, sua mulher, e Saul, não contente, mandou mensageiros para prender David. Mas o espírito de Deus, paradoxalmente, veio sobre os emissários e eles foram tomados de delírio. Em seguida, mais dois grupos de emissários, enviados por Saul para matar David, foram também possuídos pelo Espírito de Deus, e entrando em delírio, não puderam matá-lo. Finalmente, o próprio Saul foi para matar David: “Mas o Espírito de Deus também se apossou dele e ele caminhou delirando até chegar às celas em Ramá onde estavam David e Samuel. Também ele se despojou de suas vestes, também ele delirou diante de Samuel e depois caiu no chão, nu, e ficou assim todo aquele dia e toda a noite. Daí o provérbio: está também Saul entre os profetas?” (1 Sam 19.9ss). E assim o Espírito Santo de Deus – numa irreverência aprendida de Exu – expôs o rei ao ridículo...
Saul é o último dos juízes e o primeiro dos reis. A partir da instituição da realeza, o empreendimento mediador do sopro-espírito cessa. Quando Samuel unge o último dos filhos de Jésse, “o espírito do Senhor funde-se com David a partir deste dia” (1 sam 16.13). Com David, alguma coisa acontece de definitivo e nós podemos seguir a continuidade pela profecia de Natan (2 Sam 7); a de Isaías (ls 11.1-2); e a de Lucas (Lc 3.31).
O mais importante nisso tudo é que o Cristo revelado em Jesus da cidade de Nazaré é da linhagem de David, não porque nele também havia esta fusão do Espírito-Sopro. O Emanuel – Deus Conosco – é este sopro de vida, este axé onde funde-se o princípio vital de individuação e comunicação – Exu -, mediador entre Deus e os homens e mulheres, princípio de vida, de liberdade, de amor, de generosidade, oferenda, ebó, bênção, justiça, santidade, equilíbrio cósmico e todos etcéteras que couberem, cabem e caberão nesta nossa travessia da vida. O Cristo é avesso, como Exu, aos dogmas, preconceitos e autoritarismos que revestem as instituições. Ele parte e envia o seu espírito de liberdade na festa do fogo, de Pentecostes, que como princípio dinâmico continua a animar a vida dos homens e mulheres na liberdade, na ternura e na luta.
Em tempo, Exu é uma divindade do fogo. Ele trouxe o Sol e sua festa é no solstício de verão.
O que gostaria de apontar é que a espiritualidade, ou melhor, a vida segundo o Espírito, segue toda a trajetória desta simbólica inaugurada pela teologia iorubana, com certeza mais antiga que a hebraica e que, sem dúvida, determinou toda a linguagem veterotestamentária. O mais importante é que Exu, como o Espírito Santo, não se deixa aprisionar pelos espíritos mesquinhos dos homens e das mulheres, pelas suas miopias e sua arrogância, mas está vivo e atuante em todos os que buscam o equilíbrio cósmico, da natureza com o humano com o divino e com todas as plurais combinações possíveis nesta nossa “travessia perigosa, mas que é a da vida”.
Em síntese, tanto Exu como Emanuel estão no movimento do Espírito, de geração em geração, por todos os séculos, longe dos aprisionamentos institucionais das igrejas e seitas, revelando-se e manifestando-se nas formas diversas plurais que conseguem, sempre festejando a força da vida, no meio dos seus amados e amadas, na festa anunciada e vivida, na mesa farta, repartida em mancheias para todos os que chegam, não importando a sua fé, sua cor e seus caminhos. Esta escrito que “Àse Èsù yóò bá o gbé làyè” (“O axé de Exu vai acompanhar você por toda a vida”) e que “a loucura de Deus é mais sábia que os homens” (1 Cor 1.25).



Laroyé!



Solitude, primeiro de novembro de 1994.



Festa de Todos os Santos



TRINDADE, Liana Sílvia. Exu símbolo e função. Coleção Religião e Sociedade Brasileira, vol. 2. São Paulo, USP/FFLCH, s.a. p. 80.
SODRÉ, Muniz, A verdade seduzida. Rio de Janeiro, Coderci, 1983. p. 143ss.
UNAMUNO, Miguel. La agonia del Cristianismo. Madrid, Alianza Editorial, 1992. p. 31
BASTIDE, Roger. O Candomblé da Bahia. Coleção Brasiliana. São Paulo, Companhia da Editora Nacional, 1961. p. 224.
CONGAR, Yves. Je crois en I’Esprit Saint. Paris, Ed. du Cerf, 1981. v. 1, p. 19ss






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BOTAS, Paulo Cezar Loureiro. Exu: Ruah, Pneuma, Espírito Santo. In: _________. Carne do Sagrado, Edun Ara: devaneios sobre a espiritualidade dos orixás. Rio de Janeiro/Petrópolis: Koinonia Presença Ecumênica e Serviço/Vozes, 1996. p. 33-40

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Núcleo de Estudos Egbé/RS

Participe dos encontros de estudo de Teologia e Filosofia de Matriz Africana promovidos pelo Egbé/RS. São realizados na 4ª quarta-feira de cada mês, às 18h, no Sindisprev/RS (Trav. Francisco Leonardo Truda, 40, 12º andar, Porto Alegre). Os eventos são abertos e gratuitos, bastando a leitura prévia de textos que estarão disponíveis para xerox na Toka da Cópia (Riachuelo, 1426, esquina com Borges de Medeiros), na pasta com o nome da ONG.

Fique ligado na pauta e no calendário dos encontros. Informe-se pelos números 3354.7119 / 9177.1712, email egbeorunaiye@yahoo.com.br ou site http://egbeorunaiye.blogspot.com/.

Repasse esta informação. Vamos fortalecer nosso debate!

Púpò àse!

Vanessa Efunpàdé t'Iyemojá
Coordenadora de Mídia - Egbé/RS

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Intolerância Religiosa

Marcha pede entendimento entre culturas e religiões

Por Vanessa Efunpàdé Martins, jornalista e Iyálàse do Ilè Ògún Onire e Oyá Niké



Para a mitologia nagô, Ogun é o desbravador, senhor das estradas e das batalhas. Segundo a tradição afro-religiosa do Rio Grande do Sul, 2009 é regido por este Orixá, que também é um dos mais populares do Brasil. Pois o ano já começa com uma grande missão para esta divindade: inspirar os milhares de religiosos de diversas tradições que estarão reunidos no dia 21 de janeiro no Largo Glênio Peres, Centro da capital, para protagonizar a I Marcha Estadual Contra a Intolerância Religiosa e Pela Vida. A caminhada está prevista para iniciar às 18h, com saída do Mercado Público seguindo pela Borges de Medeiros até o Largo Zumbi dos Palmares, onde acontecerá um ato público, às 19h30. Haverá também uma atividade no Gasômetro, em que religiosos de matriz africana entregarão um presente às divindades das águas.

Ato Político
No Largo Zumbi dos Palmares, antigo Largo da Epatur, importante símbolo da resistência negra na capital, os integrantes da Marcha farão um ato de repúdio ao assassinato de quilombolas do Quilombo dos Alpes, ocorrido no final do ano, e vão pedir aos governantes que criem uma delegacia especializada em crimes étnico-raciais e intolerância religiosa, a exemplo do Rio de Janeiro, além de uma Comissão sobre o tema. Projetos de Lei que tramitam em âmbito estadual e municipal e que atacam a liberdade de culto também serão denunciados, como a conhecida “Lei do Silêncio”.

A importância da data
O dia 21 de janeiro faz parte do calendário oficial do país como o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, conforme explica o Babalorixá Dyba de Iyemanjá, conselheiro do CDRAB (Congregação em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras), uma das entidades promotoras do evento. “Esta data lembra a morte de Mãe Gilda de Oxalá, em Salvador, que enfartou após ver sua foto estampada no jornal da igreja Universal, cuja manchete acusava: ‘charlatães lesam o bolso do povo’”, explica.
O sacerdote alerta que a intolerância religiosa é pauta em todo o território nacional já há algum tempo. “Atrocidades tem sido cometidas em defesa de uma fé discriminadora, irracional e racista professada pelos seguimentos neo-pentecostais e, sobretudo, pela Igreja Universal do Reino de Deus no Brasil afora. Precisamos estar atentos, pois a todo o momento surgem ataques ao povo afro-religioso, inclusive com agressões físicas, como já têm acontecido”, denuncia.
O dia 21 de janeiro será lembrado em diversas outras capitais, com atividades diversas. Em Porto Alegre, o objetivo dos organizadores é reunir cerca de 10 mil participantes entre praticantes de religiões afro-brasileiras, simpatizantes e religiosos de outras confissões que também clamam pelo respeito, entendimento e diálogo inter-religioso. A Marcha tem apoio de inúmeras entidades entre elas a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa/RS, associações representativas das religiões de matriz africana no Estado, gabinetes de Deputados estaduais, Organizações Não-governamentais, entre outras.

OUTRAS INFORMAÇÕES:
Blog: http://povodoaxers.blogspot.com/
www.eutenhofe.org.br

Fotos:
1. Caminhada contra a intolerância na Bahia
2. Terreiro de Mãe Rosa, demolido arbitrariamente pela Prefeitura de Salvador
3. Ataque a Templo de Umbanda por evangélicos, no Rio de Janeiro


Obs: Permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Manifesto Teológico

Manifesto em defesa do estudo teológico da Religião Afro-Brasileira1


Jayro Pereira de Jesus2
(Ogiyán Kalafor Olorode)
teologiaafro@yahoo.com.br


A religião de matriz africana e afro-brasileira tem sido alvo de dois processos de corrosão que as vêm desmoronando paulatinamente. Um que ataca de fora para dentro e outro “desde dentro” das próprias religiões afro-brasileiras que trabalha na lógica do cupim. O primeiro processo de corrosão de natureza externa que se arrasta histórica e secularmente é proveniente da sociedade como um todo, cuja ótica ainda está arraigada ao ideário do Brasil Colônia, Império, República Velha e que continua vigente na atualidade como que inalteradamente.
Importa dizer que nem mesmos as políticas de reconhecimento levadas a efeitos pelas atuais ações afirmativas, advindas dos setores dos âmbitos federais, estaduais e municipais, tirou do lugar marginal a que estão relegadas as Religiões de Matriz Africana e Afro-Brasileira conjuntamente com seus fiéis. Assim, portanto, a sociedade abrangente mantém seus estigmas, estereótipos, preconceitos e discriminações para com as Religiões Afro-brasileiras inarredavelmente.
Com o recrudescimento da intolerância religiosa as discriminações aos Cultos Afros potencializaram-se ao tempo que são retroalimentados. Nessa direção o imaginário da população é trabalhado para recobrar ou reavivar sentimento de afrotheofobia pelos meios de comunicações de que dispõem as denominações evangélicas. As perpetradoras da intolerância religiosa que cada vez mais sofistifica o seu proselitismo beligerante, ao tempo que cede às violências físicas aos adeptos afros que as sofriam em logradouros públicos. Ataca agora de forma semiológica e semanticamente com requentes de perversidade.
Importa refletir que os malefícios atribuídos aos Cultos Afros não são só absorvidos pelo conjunto da população incitada contra a Religião dos Orixás, Inkices, Voduns e demais Entidades Espirituais que se apresentam na Umbanda, na Quimbanda, etc. Os malefícios numa espécie de teologia afro do mal são introjetados por adeptos e que soma um contingente muito grande de vivenciadores/as que reforçam negativamente a sua fé na religião afro-brasileira. O fenômeno instaura sentimento de impotencialidade, envergonhamento e, por conseguinte, auto-invisibilidade nos adeptos que se esquivam de toda e qualquer manifestação ou autodeclaração de notoriedade e, sobretudo, pública.
A segunda ação de corrosão advém do âmago das Religiões de Matriz Africana e Afro-Brasileira, capitaneada pelas hierarquias dos Templos Afros e dos seus adeptos em geral, ressalvadas as raríssimas exceções. É verdade que motivados pela intolerância religiosa, reações vem se configurando a exemplo das ações jurídicas e manifestações públicas como passeatas, caminhadas e outros atos que junto com segmentos religiosos e da sociedade civil que forma também sofrem discriminações, tem merecido notabilidade.
Nos respectivos movimentos denúncias são feitas, a liberdade religiosa tem sido avocada, assim como reafirmação da tolerância como condição para a convivência entre as religiões. Igualmente, as prerrogativas da paz entre as religiões e perante a sociedade têm sido um dos tantos motes que embalam as manifestações contra a intolerância religiosa.
Verifica-se então que certa consciência política e no tocante aos direitos assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, incisos VI e VIII) dos adeptos vem cada vez mais crescendo, impulsionada, a bem da verdade pelas ações deletérias da intolerância religiosa. Também nessa esteira os Templos Afros vêem exacerbando as suas ações sociais, o seu envolvimento com as políticas públicas, porém esquecendo-se de um víeis crucial nessa cruzada contra a intolerância religiosa que é o estudo acadêmico, sistematizado da teologia da Religião Afro-Brasileira e legalmente reconhecido.
As justificativas contrárias ao estudo da teologia da religião afro, quase sempre tem se atido a argumentações que ha muito perdeu sentido e respeitabilidade como a “inviolabilidade” da transmissão oral do conhecimento ou da pedagogia intramuros dos terreiros/as. Procedimento que provocado denuncias de cárcere privado, motivando com isso diligências policiais e dos Conselhos Tutelares, sobretudo, quando as iniciações envolvem crianças.
Esquecem-se os/as defensores/as da oralidade e contrários ao estudo teológico da religião afro, que o rigor teórico com que no passado era seguido à risca a dinâmica da oralidade na educação iniciática, há muito caiu por terra. Como tem dito Iya Omindarewá, a “defesa” hoje de tais “princípios”, mais esconde debilidade do que seriedade na manutenção da Tradição. Em nome de segredos inexistentes no processo iniciático, estão em jogo, outros interesses que não a sabedoria, a probidade religiosa ou a senioridade iniciática. Há quem alerte para a “hipertrofia ritual e falência moral”, assim como quem enxerga o candomblé e suas denominações regionais como uma “religião aética”.
“Quando os contrários ao estudo da teologia da religião afro corroboram com a discriminação à Religião de Matriz Africana e Afro-Brasileira”, essa hipótese poderia se se tornasse em um projeto acadêmico, as pesquisas tanto empírica como bibliográfica de forma volumosa comprovaria a hipótese irrefutavelmente. Por isso que sem sombras de dívidas a assertiva é essa mesma. As discriminações vêm de fora e são alimentadas pelos desde dentro das Religiões de Matriz Africana e Afro-Brasileira, não restando qualquer dúvida a esse respeito. Como cupim, eles/as (hierarquias, adeptos, etc.,) corroem seu próprio habitat ou lócus consciente, inconscientemente ou por má fé mesmo.
A verdade é que nem o movimento da reafricanização tem conseguido reverter o quadro das discriminações que acometem os adeptos afros. As crianças afrodescendentes sejam elas envolvidas ou não com a religião afro-brasileira são correlacionadas a termos pejorativos atribuídos negativamente às Religiões Afro-Brasileiras.
E como sofrem a camada infanto-juvenil em geral que desprovidas de preconceitos, externam nas escolas seus pertencimentos religiosos afros e dos seus familiares. A mesma se converte em objeto de achincalhes e alvos da intolerância das crianças neopentecostalizadas em função dos seus familiares.
A nossa mais veemente crença é de que o estudo acadêmico e sistematizado da teologia afro, isolada ou comitantemente às ações políticas e jurídicas contra a intolerância religiosa produzirá mudança radical na visão da sociedade com relação à Religião Afro-Brasileira e seus adeptos. Debelando ou iniciando um processo de erradição de toda essa visão negativa que incide contra as Religiões de origem africana.
A tarefa emergencial é a da elaboração de massa crítica acerca da Religião Tradicional Africana, da Religião de Matriz Africana e Afro-Brasileira. E isso no campo da teologia, porque só desta forma se sairá do rol dos charlatões, dos curandeiros e dos que exploram a credulidade pública, tipificado como crime ou ainda muito presente no imaginário da população.
O item VII do art. 5º da Constituição da República Federativa do Brasil diz que: “é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva”. Como sacerdotes e sacerdotisas da Religião Afro-Brasileira podem se habilitar a essa função sem curso pós-médio ou superior?
As instituições militares (Exército, Marinha, Aeronáutica), Hospitais, Presídios, etc., não aceitarão os/as Sacerdotes ou Sacerdotisas afros sem formação acadêmica e/ou mediante a apresentação de diplomas de Ministro de Culto conferidos pelas inúmeras entidades de filiação e de “representação” de adeptos das Religiões de Matriz Africana e Afro-Brasileira.
A saída é o estudo da teologia da Religião Afro-Brasileira porque só desta maneira os Sacerdotes e Sacerdotisas tanto da Umbanda como do Candomblé saião do rol dos charlatães, curandeiros e exploradores/as da credulidade pública.

Curitiba, 30 Outubro de 2008, ano do Centenário da Umbanda,


Fundada em 15 de novembro de 1908.


Prof. Jayro Pereira de Jesus
Fone (41) 8803-5048


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1 Texto sem revisão.
2 Mestre em Teologia pelo IEPG da EST, Licenciado em Ciências Religiosas pela PUCPR; editor da Revista Africaxé, Coordenador Nacional do Egbé Òrun Àiyé e do CENARAB, omórìsá

QUAL O VALOR DO AXÉ?



(Por Ìyálórìsà Fernanda t'Òsun Doko, secretária executiva do Egbé Òrun Àiyé-RS)








Por que a maioria das pessoas preocupa-se hoje em dia com o custo de uma obrigação e não com o significado dela? Se é da vontade do meu Orixá que eu faça obrigação a ele, ele vai me colocar em um local sagrado, no qual ele está disposto a receber esse sacrifício, e não vai me dar condições de arcar com os custos materiais dessa obrigação? Tantos questionamentos a respeito de “valor de axé”, “custos de obrigação” levam-me sempre à pergunta: onde andará a fé nos Orixás?

Afinal, quem tem escolhido o destino religioso desses seres humanos que medem sua Orixalidade em valores materiais? Será que o Orixá dessas pessoas é tão ruim que as coloca em lugares nas quais serão humilhadas por não terem dinheiro de arcar com as suas obrigações aos próprios Orixás? Elas buscaram a real orientação do seu Orixá-Ori nesses momentos de escolha, de entrega e de comprometimento ou foram levadas por outros valores ou motivações no momento de entregarem sua vida espiritual e religiosa na mão de algum sacerdote?

Se o Orixá quer que seu filho faça obrigações em com aquele sacerdote e é ali lugar que esse Orixá escolheu para que fosse feita essa ligação tão importante entre ele e o ser humano, que é o ponto-chave de toda a religiosidade africanista, a união entre o mundo material e o espiritual, ele não dará condições ao filho para isso?

Sabemos que essas questões são individuais, e só nós, temos a exatidão do nosso relacionamento com nosso Orixá-Ori e com os demais, pois isso não é algo apenas externo. Nossa conduta de fé ficará evidente em inúmeras situações do nosso dia-a-dia, àqueles que possuam conosco o convívio, mas a essência desse relacionamento estará sempre nas nossas mentes e nos nossos corações, na maneira como sentimos, pensamos e agimos... Na maneira como pessoal e internamente ACREDITAMOS e nos ENTREGAMOS.

“...ele não dará condições ao filho para isso?”
Caso isso aconteça, pode ser que esse “filho” seja dos tantos que realmente não estão prontos para ter essa ligação entre ele e o Orixá estabelecida, reafirmada ou continuada, o que é muito comum nos dias de hoje. Pode não ser da vontade do Orixá obrigação naquele momento, ou com aquele sacerdote. É possível que o Orixá queira ver a força da fé do filho em persistir e perseverar para dar-lhe a devida obrigação! Enfim, são inúmeras possibilidades nesse caso; em cada caso, pois cada ser humano possui seu Odu pessoal e seu relacionamento em nível individual com as divindades.

Ao meu ver, as pessoas que ao longo do percurso abandonam a sua religiosidade e crença aos Orixás por fatores materiais ou interpessoais não estavam aptas para esta prática, para está fé, para esta filosofia. Para praticar verdadeiramente a religião de matriz africana é necessária uma plena noção da responsabilidade que devemos ter perante as Divindades, responsabilidade essa que vai aumentando gradativamente com o grau iniciático.
Essa responsabilidade implica em SACRIFÍCIO.

Segundo dicionário disponibilizado on-line pela Priberam Informática:
“Sacrífício:
do Lat. sacrificiu

s. m., acto ou efeito de sacrificar; oferta de vítimas ou de donativos à divindade, revestida de certo ritual, para expiação da culpa ou para implorar auxílio; imolação; sofrimento;
fig., privação voluntária em benefício de outrem; renúncia; abnegação;
(no pl. ) trabalhos, canseiras.”


Segundo o dicionário Michaelis:
“sacrifício
sa.cri.fí.cio
sm (lat sacrificiu) 1 Ação ou efeito de sacrificar. 2 Oferenda de animal, produto da colheita ou de qualquer coisa de valor, feita a uma divindade para lhe tributar homenagens, ou para reconhecimento do seu poder, ou ainda para lhe aplacar a cólera. 3 A pessoa ou coisa sacrificada. 4 Renúncia voluntária a um bem ou a um direito. 5 Ato de abnegação, inspirado por um veemente sentimento de amizade ou de amor. 6 Privação, voluntária ou involuntária, de uma coisa digna de apreço e estima. 7 Risco em que se põem os próprios interesses para interesse de alguém ou de alguma coisa. 8 Constrangimento, sofrimento. 9 Despesas, custos. 10 Bel-art Desprezo de certos acessórios para fazer realçar numa obra as partes principais. 11 No jogo de xadrez, entrega de peça ou pião com vistas a melhoria posicional. O s. de Jesus: a sua morte na cruz para redenção da humanidade. S. do altar: a missa. S. humano: imolação de uma pessoa como vítima à divindade. S. incruento: sacrifício em que não se derrama sangue; a missa. Espírito de sacrifício: inclinação, tendência para sacrificar-se por ideais, pessoas etc.”

Quantos tem a real noção de que nossa religião implica necessariamente em SACRIFÍCIO antes de fazerem o processo iniciático? Quantos “compram” a promessa que ser de religião africanista é uma vida apenas de caminhos abertos para dinheiro, amor, alegria e felicidade? Quantos vendem essa promessa? E quantos enchem a boca para se dizerem “filhos de Orixá” mas na verdade o que buscam dentro da religião são apenas satisfação material, amorosa, profissional, etc... mas na hora do sacrifício sempre estão cheios de reclamações, comparações, medidas!?!? Seres egoístas, mesquinhas e sem nenhuma noção de religiosidade, pois querem é apenas receber, sem fazer a sua parte para isso!

E a questão do sacrifício de valores materiais(dinheiro propriamente dito) ainda considero ser a mínima, apesar de ser tão ferrenhamente questionada e debatida. Tanto que essa parte aparece pequenina e apenas na segunda definição do que significa sacrifício (9 Despesas, custos).


Orixalidade e axé não se compra! Não têm valor em reais, dólares ou euros!!!

Quem é sacerdote religioso, já tendo atingido o grau mais elevado de obrigações aos Orixás e recebido os axés de Obé e Ifá, pode e deve colocar preço para disponibilizar de seu axé, de seus serviços como sacerdote religioso. E esses serviços não têm valor tabelado como carteiras de cigarro! Apesar de ser a preocupação de muitos “religiosos” a comparação de preços de axés! Muitos colocam a “cabeça a prêmio”, em que o que vale não é a vontade do Orixá, e sim quem “cobra” menos pelo “serviço”. E realmente, o pior de tudo é quem oferece o tal “serviço” de botar no chão! Uma tamanha falta de responsabilidade perante os seus próprios Orixás e de dignidade na utilização dos axés que deles recebeu!
Mas dolorosamente essa é nossa realidade!
Muitos nem sabem a diferença entre fazer um serviço e fazer a ligação entre o ser humano e seu Orixá-Ori. Entre fazer feitiços e assentar Orixás!

Os salões de batuque estão lotados!!! E há cada dia mais e mais salões!!!
Mas quantos desses seres humanos sabem o que estão fazendo ali?
Ou melhor, quantos sabem o que deveriam estar fazendo ali?
Ainda, sabem o significado de tudo isso?
Do que realmente é SER um religioso de matriz africana???

A minha resposta pessoal à pergunta inicial:

Qual o valor do axé? SACRIFÍCIO!
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