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terça-feira, 20 de maio de 2014

TRADIÇÕES DE MATRIZ AFRICANA – UMA QUESTÃO HISTÓRICO-TEOLÓGICA



A escrita é uma coisa, e o saber, outra. A escrita é a fotografia do saber, mas não
o saber em si. O saber é uma luz que existe no homem. A herança de tudo aquilo
que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos
transmitiram, assim como o baobá já existe em potencial em sua semente”.
Tierno Bokar



Não é novidade a sentença do excelentíssimo juiz federal Eugênio Rosa de Araújo. A criminalização de nossas práticas existe desde a colonização do Brasil. Se durante os períodos convencionalmente chamados pela historiografia de Brasil Colônia e Brasil Império a nossa tradição era perseguida como satanismo, durante a República o motivo mudou mas a perseguição persistiu, agora como charlatanismo e curandeirismo. Apesar da Constituição de 1988, quando retorna a democracia e as tradições de matriz africana são reconhecidas e ganham espaço, surge um recrudescimento das intolerâncias que, na última década, resultaram em dezenas de Leis propostas por legisladores evangélicos nos legislativos de todo o país, nas esferas municipais, estaduais e federal, com o intuito de coibir as práticas da tradição de matriz africana.

A sentença do juiz Araújo no último dia 25 de abril é mais uma faceta dessa sequência de acontecimentos. Segundo ele a umbanda e o candomblé não podem ser entendidos como religião porque lhes faltam características típicas de uma manifestação religiosa como um texto-base, uma hierarquia e a crença num deus.

Pois bem, vamos comparar a afirmação do excelentíssimo juiz com a nossa realidade a luz de nossa Teologia. Toda religião possui um texto sagrado que a orienta. O problema para a cultura ocidental é o pressuposto de que todo texto é escrito, o que diverge de nossa tradição que é oral, ou seja, é guardado na memória e verbalizado sempre que necessário, pois é a verbalização que o caracteriza como sagrado. O ar que sai de nossa boca foi presente de Olódùmarè e como tal, sempre que pronunciamos algo este é entendido como emanação do sagrado. Para Amadou Hampâté Bâ, etnólogo malinês, a tradição oral é, ao mesmo tempo, “religião, conhecimento, ciência natural, iniciação à arte, história, divertimento e recreação, uma vez que todo pormenor sempre nos permite remontar à Unidade primordial”, pois a palavra falada possui um “caráter sagrado vinculado à sua origem divina e às forças ocultas nela depositadas”. Por isso é inconcebível a mentira em nossa tradição. Isto tem que ser bem entendido, pois, devido ao epistemicídio1 orquestrado pela sociedade ocidental, até nosso próprio povo ignora, ainda que o use cotidianamente, que possuímos um texto sagrado. “Não temos uma bíblia”, dizem. Temos sim. Temos chamado de Onìmọ̀ Mẹ́fà, ou as seis sabedorias: Ifá (Histórias Sagradas), Oriki (louvações), Adúrà (rezas), Orin (cânticos sagrados), Òwe (provérbios) e Orò (ritos). São os nossos orientadores teológicos, filosóficos e litúrgicos.

É através deste estudo afroteológico que temos compreendido a natureza dos Òrìṣà. Ao contrário do que se diz os Òrìṣà não são deuses, nem espíritos superiores ou ancestrais divinizados. São divindades, criações de Olódùmarè. Estão no mundo para desenvolver tarefas específicas na manutenção de toda a vida na Terra e no auxílio aos seres humanos ao conduzir suas vidas para um bom caminho. Olódùmarè, por outro lado, é um Ser Supremo. É verdadeiramente Deus e é único. Então entendemos que teologicamente somos monoteístas, afinal temos um único Deus.

Por fim temos a questão da hierarquia. Bem, não entendemos porque o excelentíssimo juiz afirmou que não há hierarquia nas tradições de matriz africana, afinal todos já ouviram falar em pais e mães de santo e filhos de santo. Como esta é uma tradição civilizatória, a hierarquia se apresenta como numa grande família onde o líder máximo é o Bàbálórìṣà ou Ìyálórìṣà, ou seja, o pai e a mãe, tendo seus iniciados como filhos espirituais. O que talvez o juiz não saiba é que ainda entre os Ọmọ̀rìṣà (filhos/as de santo) também há uma hierarquia que depende do tempo de iniciação. O mais velho do mais alto grau iniciático é superior na hierarquia.  Temos que propagar estas ideias para desarmarmos pessoas como este juiz que obviamente não entende nossa tradição.

No início deste ano realizamos uma manifestação pública, a VI Marcha Estadual Pela Vida e Liberdade Religiosa cuja pauta era a criação de uma Delegacia de Combate ao Racismo e às Intolerâncias Correlatas. No manifesto já aludíamos a necessidade de uma melhor adequação às demandas do povo de terreiro, dos aparatos jurídicos. Além de exigirmos a criação da Delegacia, também reivindicamos educação e formação das polícias militar e civil para que se apropriem conceitualmente do que são as tradições de matriz africana; capacitação de delegados, juízes e advogados para atuarem com propriedade nas questões que envolvem as tradições de matriz africana e afro-brasileiras. O judiciário tem o dever de promover o respeito mútuo para que haja uma sociedade mais digna e democrática tanto ética quanto moralmente; e para que haja a reparação histórica dos danos causados pelo próprio Estado às tradições de matriz africana e afro-brasileiras. Desconstruindo esse paradigma do mal fundado em ideologias excludentes, racistas e xenófobas.

Entendemos que a denotação laica do Estado jamais deve ser questionada, entrementes, é crucial que se entenda, também, que as ações públicas e civis contra as tradições de matriz africana são atos político-sociais e que é dever do Estado Democrático de Direito “assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”. (CF, 1988)

O juiz federal Eugênio Rosa de Araújo ao negar o status de religião às tradições de matriz africana e afro-brasileiras, rasgou todos os códigos democráticos internacionais assinados pelo país. Rasgou o Estatuto da Igualdade Racial. Rasgou a própria Constituição Federal.


Púpọ̀ Àṣẹ Gbogbo!




Hendrix Silveira
Coord. Geral do  Ẹgbẹ́ Ọ̀run Ayé – Associação Afro-Brasileira de Estudos Teológicos e Filosóficos das Culturas Negras
Bàbálórìṣà do Ilé Àṣẹ Òrìṣà Wúre
Mestrando em Teologia e História (EST)
Especialista em Ciências da Religião (UCAM)
Licenciado em História (FAPA)
Bolsista CAPES



Jayro Pereira de Jesus
Presidente da ATRAI – Associação Nacional de Teólogos e Teólogas da Religião de Matriz Africana e Indígena
Ọmọ̀rìṣà de Òṣàgiyán
Bacharel em Teologia (PUC/PR)
Licenciado em Ciências da Religião (PUC/PR)
Assessor da Coordenação de Saúde da População Negra – Secretaria de Estado da Saúde do RS


Luís Eduardo Rodrigues
Diretor da ESTAF – Escola de Filosofia e Teologia Afrocentrada
Ọmọ̀rìṣà de Ògún
Licenciado em Filosofia (UFRGS)
Professor da Rede Estadual de Educação







Referências


BÂ, Amadou Hampâté. A Tradição Viva. In: KI-ZERBO, Joseph (Org.). História Geral da África, I: Metodologia e Pré-História da África. Brasília: UNESCO, 2010, p. 169.
JESUS, Jayro Pereira de. Manifesto do Ẹgbẹ́/RS pelo respeito às religiões de matriz africana. Disponível em . Acesso em 08/01/2013.
______; et al. Reivindicações das Religiões de Matriz Africana ao Governo do Estado do RS. Disponível em <http://www.babadybadeyemonja.com/2011/11/repressentantes-das-religioes-de-matriz.html>. Acesso em 08/01/2014.
ORO, Ari Pedro. Considerações sobre a liberdade religiosa no Brasil. In: Ciências & Letras. Porto Alegre, n.37, p. 433-448, jan./jun. 2005.
______; BEM, Daniel F. de. A discriminação contra as religiões afro-brasileiras: ontem e hoje. In: Ciências & Letras. Porto Alegre, n.44, p. 301-318, jul./dez 2008.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Toward a new common sense: law, science and politics in the paradigmatic transition. New York: Routledge, 1995.
SILVEIRA, Hendrix. Óia os aribano!: causas e consequências das perseguições às religiões afro-brasileiras durante a Ditadura Militar em Porto Alegre (1964-1985). No prelo.
______. Afroteologia: elementos epistemológicos para se pensar numa teologia das religiões de matriz africana. In: Deus na sociedade plural: fé, símbolos, narrativas: anais do congresso da SOTER / Sociedade de Teologia e Ciências da Religião. Belo Horizonte: PUC Minas, 2013. p. 1133-1143.


1 Boaventura de Sousa Santos designa por epistemicídio, o processo de destruição criativa promovido pela ciência moderna em defesa do seu privilegiado estatuto.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

EXU: RUAH, PNEUMA, ESPÍRITO SANTO







Comunicação, princípio, movimento, provocador de situações.
(Mãe Stella)




Aos que acreditam na irreverência da vida.




Os leigos na religião dos orixás, imersos no simbolismo do mal construído pelas igrejas e pelos detentores do poder durante a escravidão, aprenderam a conferir a Exu o princípio demoníaco da feitiçaria, da bruxaria e da maldade. No entanto, se lermos as poesias e as narrativas sobre Exu vamos mergulhar na profunda espiritualidade deste orixá, a qual é vital para nossas travessias e desafios. Longe de ser o diabo, Exu é o princípio dinâmico de comunicação e individuação, o princípio da existência cósmica e humana. Ele é o princípio que representa e transporta o axé (força vital), que assegura a existência dinâmica, permitindo o acontecer e o devir. Ele traduz aos homens as palavras dos orixás e simboliza a descendência, a intercomunicação, a participação. É ainda o símbolo da sexualidade e da fertilidade. Ele está ligado ao destino dos homens e mulheres e de tudo o que é vivo e tem vida. Na teologia tomista existe o conceito de “eidade”: tudo tem a sua razão ôntica, de ser. Todas as coisas têm, em potência, tudo aquilo que necessitam para serem o que realmente são. Este é o princípio de Exu: possibilitar que as coisas venham a tornar plena a sua vida interior: a sua “arvoreidade”, a sua “pedraeidade”, a sua “aguaeidade”, a sua “fogoeidade”, o seu “amoreidade”, etc...
Exu responde, no mais fundo de nós mesmos, pelo movimento da vida, introduzindo o acaso e a sorte no destino dos homens e mulheres; rompendo os modelos conformistas do universo, as psicologias do “ajustamento”; e nos levando aos desafios do novo e da desordem e da possibilidade permanente de mudanças. Ele nos questiona permanentemente, aos nos revelar que o mundo é produzido e que pode ser produzido de maneira diferente. Indaga-nos pelas nossas utopias e esperanças e nos mostra a fragilidade das nossas tentativas de criar sistemas e estruturas definitivas onde a vida fica limitada e sem horizontes.
Exu nos mostra que somos inefáveis como Deus, e como inefáveis somos a encarnação do desafio e da irreverência (ele troca o sol pela lua, etc); ele permite aos homens e mulheres a possibilidade de autodeterminação, de exercer o pensamento divergente, de confrontar as interdições sociais que limitam o gozo da liberdade. Como princípio dinâmico é o-não-ainda-possível.
Exu é o pai da luta: duelo e desafio. A vida é luta, e a solidariedade para a vida é luta e se faz na luta. O que mais une os homens e mulheres, uns com os outros, são duas discórdias, quando as diferenças são respeitadas e confrontadas. O que mais une cada um de nós conosco mesmos, o que faz a unidade íntima de nossa vida são nossas discórdias íntimas, as contradições interiores de nossas discórdias. Só se esta em paz consigo mesmo para morrer.
O modo de viver e de lutar e de lutar pela vida e viver da luta é duvidar.
E o que é dúvida? Dubitare contém a mesma raiz, a do numeral duo, dois, que duellum, luta. A dúvida, mais que a pascaliana, a dúvida agônica ou polêmica, que não a cartesiana ou dúvida metódica, a dúvida de vida – vida é luta – e não de caminho – método é caminho – supõe a dualidade do combate.
Exu é o entusiasmo permanente de vida e luta. É entusiasmo no seu verdadeiro significado é o mesmo que endeusamento. O entusiasta é um endeusado, o que plenifica de Deus. Por isso Exu é a quem se devota afeição e amizade, a quem se confia os segredos mais íntimos e as promessas e pedidos a serem atendidos. Ele é a encarnação do entusiasmo e do endeusamento. Tudo o que existe tem o seu Exu, porque tudo tem vida e participa intimamente desta força vital de Deus.
Se Exu, no culto de Ifá, “fala” pelos odus – palavras dos orixás – traduzindo-as para os homens e mulheres, no domínio de Ossaim é quem abre as portas para que cada orixá – que tem as suas próprias folhas – possa fixar-se na cabeça – ori - dos seus filhos e filhas. No reino dos Egum é quem permite a passagem deles para o corpo das crianças que vão nascer... Não há morte nesta teologia, mas uma transformação permanente de vida em busca da plenitude e da ancestralidade.
Nenhum transe místico se realizaria no candomblé se não fosse primeiramente celebrado o seu padê, se não lhe tivessem pedido que levasse aos orixás o desejo dos homens e mulheres, convidando-os para virem dançar nas festas.
Nesta dimensão, o tempo de Exu é o tempo oportuno – Kairós -, o aqui-e-agora: o axé hic et nunc. Os orixás dançam e celebram com seus filhos e filhas naquele exato momento, e a troca da força vital é realizada na relação comunitária, religiosa, na qual cada gesto, dança, canto e comida são prenhes de significado e de vida.
A representação simbólica de Exu com chifres talvez possa ter influenciado, pelo ideário caricato das igrejas, a sua identificação com o diabo. Esta representação, no entanto, é anterior à construção do Antigo Testamento, cujo livros foram escritos após o Exílio e que, com certeza, tiveram toda a influência dos símbolos e arquétipos africanos.
O chifre tem o sentido primitivo de elevação e seu simbolismo é o poder: “Farei germinar um chifre, um corno para David” (Sl 132.17). Ele simboliza a força de Deus e evoca o prestígio da força vital (axé), da vida inesgotável e das grandes divindades da fecundidade: “Me resguardo Nele, meu escudo e meu corno de salvação” (Sl 18.4).
O cosmos, segundo a teologia iorubana, está dividido em quatro compartimentos e é a criação de um único Deus: Olorum. É preciso que a divisão não suprima a unidade e que os quatro compartimentos se liguem entre si. É Exu quem abre as portas e traça os caminhos e cuja missão é criar aberturas entre os quatro reinos, furar as paredes que os separam uns dos outros, fazendo-os entrarem em comunicação por seu intermédio e assegurando, assim, a união cósmica.
Os quatro cornos dos altares dos holocaustos situados no Templo designam as quatro direções do espaço: a extensão ilimitada do poder de Deus. Carl Yung aponta a ambivalência no simbolismo dos cornos. Eles representam um princípio ativo e masculino, por sua forma e por sua força de penetração, e um princípio passivo e feminino por sua forma de lira e de receptáculo. O ser humano, reunindo ambos os princípios na formação de sua personalidade e assumindo-se integralmente, chega à maturidade, ao equilíbrio e a harmonia interior.
Èsù fi ire bò wá o.
Exu faça a nossa vida plena das coisas boas.
No hebreu, Ruah – traduzido para o grego Pneuma – significa sopro, hálito, ar, vento e alma. Nas 378 vezes que o termo é empregado no Antigo Testamento, ele é distribuído em três grupos de igual importância:
É o vento, o sopro de ar;
É a força viva com o homem, princípio de vida (hálito), sede de conhecimento e dos sentimentos;
É a força de vida de Deus, pela qual age e faz agir tanto no plano físico quanto no espiritual.
No grego profano e no uso filosófico, pneuma exprime a substância viva e geradora nos animais, nas plantas e em todas as coisas. Na Bíblia o ruah-sopro não é desencarnado, pelo contrário, é a animação do corpo. Se o mundo cultural grego pensa em categorias de substância, o mundo judaico pensa em força, energia e princípios de ação. O espírito-sopro é o que age, faz agir, e em se tratando do Sopro de Deus anima e faz agir para realizar o desígnio de Deus. É sempre uma energia de vida. A espiritualidade não consiste, então, em se tornar imaterial, mas ser animado pelo Espírito Santo e, por que não dizer, o axé de Exu?
Este ruah-pneuma é o vento: “sopra onde quer e como quer, ninguém sabe de onde vem nem para onde vai” (Jo 3.8); é o hálito de Deus que comunica a vida: “ o céu foi feito com a palavra de Javé e seu exército com o sopro de sua boca” (Sl 33.6); o hálito do homem e da mulher, princípio e sinal de vida: “morreu tudo o que tinha um sopro de vida nas narinas” (Gn 6.22); e a animação que realiza uma obra: “eu o enchi com o espírito de Deus em sabedoria, habilidade e perícia para toda espécie de trabalho” (Ex 31.3).
O Sopro recebe diversas qualificações, segundo os efeitos dos quais é o princípio: espírito de inteligência (Ex 28.3); de sabedoria (Dt 31.3); de ciúmes (Nm 5.14); de ódio (Jz 9.23); de prostituição (Os 4.12); de impureza (Za 13.2); de justiça (Is 28.6) e de súplica (Za 12.10). O Antigo Testamento hesita em associar os espíritos perversos a um outro que não seja Deus: “Suscitou Deus um espírito de aversão” (Jz 9.23); “O espírito maligno da parte do Senhor tornou sobre Saul” (1 Sam 19.9); “Eis que o Senhor pôs o espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas e o Senhor falou o que é meu contra ti” (1 Rs 22.23).
Quando o mau espírito da parte de Javé se apossou de Saul, ele procurou transpassar David, que tocava sua lira, com a sua lança. David desviou e a lança de Saul ficou cravada no muro. David fugiu ajudado por Micol, sua mulher, e Saul, não contente, mandou mensageiros para prender David. Mas o espírito de Deus, paradoxalmente, veio sobre os emissários e eles foram tomados de delírio. Em seguida, mais dois grupos de emissários, enviados por Saul para matar David, foram também possuídos pelo Espírito de Deus, e entrando em delírio, não puderam matá-lo. Finalmente, o próprio Saul foi para matar David: “Mas o Espírito de Deus também se apossou dele e ele caminhou delirando até chegar às celas em Ramá onde estavam David e Samuel. Também ele se despojou de suas vestes, também ele delirou diante de Samuel e depois caiu no chão, nu, e ficou assim todo aquele dia e toda a noite. Daí o provérbio: está também Saul entre os profetas?” (1 Sam 19.9ss). E assim o Espírito Santo de Deus – numa irreverência aprendida de Exu – expôs o rei ao ridículo...
Saul é o último dos juízes e o primeiro dos reis. A partir da instituição da realeza, o empreendimento mediador do sopro-espírito cessa. Quando Samuel unge o último dos filhos de Jésse, “o espírito do Senhor funde-se com David a partir deste dia” (1 sam 16.13). Com David, alguma coisa acontece de definitivo e nós podemos seguir a continuidade pela profecia de Natan (2 Sam 7); a de Isaías (ls 11.1-2); e a de Lucas (Lc 3.31).
O mais importante nisso tudo é que o Cristo revelado em Jesus da cidade de Nazaré é da linhagem de David, não porque nele também havia esta fusão do Espírito-Sopro. O Emanuel – Deus Conosco – é este sopro de vida, este axé onde funde-se o princípio vital de individuação e comunicação – Exu -, mediador entre Deus e os homens e mulheres, princípio de vida, de liberdade, de amor, de generosidade, oferenda, ebó, bênção, justiça, santidade, equilíbrio cósmico e todos etcéteras que couberem, cabem e caberão nesta nossa travessia da vida. O Cristo é avesso, como Exu, aos dogmas, preconceitos e autoritarismos que revestem as instituições. Ele parte e envia o seu espírito de liberdade na festa do fogo, de Pentecostes, que como princípio dinâmico continua a animar a vida dos homens e mulheres na liberdade, na ternura e na luta.
Em tempo, Exu é uma divindade do fogo. Ele trouxe o Sol e sua festa é no solstício de verão.
O que gostaria de apontar é que a espiritualidade, ou melhor, a vida segundo o Espírito, segue toda a trajetória desta simbólica inaugurada pela teologia iorubana, com certeza mais antiga que a hebraica e que, sem dúvida, determinou toda a linguagem veterotestamentária. O mais importante é que Exu, como o Espírito Santo, não se deixa aprisionar pelos espíritos mesquinhos dos homens e das mulheres, pelas suas miopias e sua arrogância, mas está vivo e atuante em todos os que buscam o equilíbrio cósmico, da natureza com o humano com o divino e com todas as plurais combinações possíveis nesta nossa “travessia perigosa, mas que é a da vida”.
Em síntese, tanto Exu como Emanuel estão no movimento do Espírito, de geração em geração, por todos os séculos, longe dos aprisionamentos institucionais das igrejas e seitas, revelando-se e manifestando-se nas formas diversas plurais que conseguem, sempre festejando a força da vida, no meio dos seus amados e amadas, na festa anunciada e vivida, na mesa farta, repartida em mancheias para todos os que chegam, não importando a sua fé, sua cor e seus caminhos. Esta escrito que “Àse Èsù yóò bá o gbé làyè” (“O axé de Exu vai acompanhar você por toda a vida”) e que “a loucura de Deus é mais sábia que os homens” (1 Cor 1.25).



Laroyé!



Solitude, primeiro de novembro de 1994.



Festa de Todos os Santos



TRINDADE, Liana Sílvia. Exu símbolo e função. Coleção Religião e Sociedade Brasileira, vol. 2. São Paulo, USP/FFLCH, s.a. p. 80.
SODRÉ, Muniz, A verdade seduzida. Rio de Janeiro, Coderci, 1983. p. 143ss.
UNAMUNO, Miguel. La agonia del Cristianismo. Madrid, Alianza Editorial, 1992. p. 31
BASTIDE, Roger. O Candomblé da Bahia. Coleção Brasiliana. São Paulo, Companhia da Editora Nacional, 1961. p. 224.
CONGAR, Yves. Je crois en I’Esprit Saint. Paris, Ed. du Cerf, 1981. v. 1, p. 19ss






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BOTAS, Paulo Cezar Loureiro. Exu: Ruah, Pneuma, Espírito Santo. In: _________. Carne do Sagrado, Edun Ara: devaneios sobre a espiritualidade dos orixás. Rio de Janeiro/Petrópolis: Koinonia Presença Ecumênica e Serviço/Vozes, 1996. p. 33-40

sábado, 10 de janeiro de 2009

Manifesto Teológico

Manifesto em defesa do estudo teológico da Religião Afro-Brasileira1


Jayro Pereira de Jesus2
(Ogiyán Kalafor Olorode)
teologiaafro@yahoo.com.br


A religião de matriz africana e afro-brasileira tem sido alvo de dois processos de corrosão que as vêm desmoronando paulatinamente. Um que ataca de fora para dentro e outro “desde dentro” das próprias religiões afro-brasileiras que trabalha na lógica do cupim. O primeiro processo de corrosão de natureza externa que se arrasta histórica e secularmente é proveniente da sociedade como um todo, cuja ótica ainda está arraigada ao ideário do Brasil Colônia, Império, República Velha e que continua vigente na atualidade como que inalteradamente.
Importa dizer que nem mesmos as políticas de reconhecimento levadas a efeitos pelas atuais ações afirmativas, advindas dos setores dos âmbitos federais, estaduais e municipais, tirou do lugar marginal a que estão relegadas as Religiões de Matriz Africana e Afro-Brasileira conjuntamente com seus fiéis. Assim, portanto, a sociedade abrangente mantém seus estigmas, estereótipos, preconceitos e discriminações para com as Religiões Afro-brasileiras inarredavelmente.
Com o recrudescimento da intolerância religiosa as discriminações aos Cultos Afros potencializaram-se ao tempo que são retroalimentados. Nessa direção o imaginário da população é trabalhado para recobrar ou reavivar sentimento de afrotheofobia pelos meios de comunicações de que dispõem as denominações evangélicas. As perpetradoras da intolerância religiosa que cada vez mais sofistifica o seu proselitismo beligerante, ao tempo que cede às violências físicas aos adeptos afros que as sofriam em logradouros públicos. Ataca agora de forma semiológica e semanticamente com requentes de perversidade.
Importa refletir que os malefícios atribuídos aos Cultos Afros não são só absorvidos pelo conjunto da população incitada contra a Religião dos Orixás, Inkices, Voduns e demais Entidades Espirituais que se apresentam na Umbanda, na Quimbanda, etc. Os malefícios numa espécie de teologia afro do mal são introjetados por adeptos e que soma um contingente muito grande de vivenciadores/as que reforçam negativamente a sua fé na religião afro-brasileira. O fenômeno instaura sentimento de impotencialidade, envergonhamento e, por conseguinte, auto-invisibilidade nos adeptos que se esquivam de toda e qualquer manifestação ou autodeclaração de notoriedade e, sobretudo, pública.
A segunda ação de corrosão advém do âmago das Religiões de Matriz Africana e Afro-Brasileira, capitaneada pelas hierarquias dos Templos Afros e dos seus adeptos em geral, ressalvadas as raríssimas exceções. É verdade que motivados pela intolerância religiosa, reações vem se configurando a exemplo das ações jurídicas e manifestações públicas como passeatas, caminhadas e outros atos que junto com segmentos religiosos e da sociedade civil que forma também sofrem discriminações, tem merecido notabilidade.
Nos respectivos movimentos denúncias são feitas, a liberdade religiosa tem sido avocada, assim como reafirmação da tolerância como condição para a convivência entre as religiões. Igualmente, as prerrogativas da paz entre as religiões e perante a sociedade têm sido um dos tantos motes que embalam as manifestações contra a intolerância religiosa.
Verifica-se então que certa consciência política e no tocante aos direitos assegurados pela Constituição Federal (art. 5º, incisos VI e VIII) dos adeptos vem cada vez mais crescendo, impulsionada, a bem da verdade pelas ações deletérias da intolerância religiosa. Também nessa esteira os Templos Afros vêem exacerbando as suas ações sociais, o seu envolvimento com as políticas públicas, porém esquecendo-se de um víeis crucial nessa cruzada contra a intolerância religiosa que é o estudo acadêmico, sistematizado da teologia da Religião Afro-Brasileira e legalmente reconhecido.
As justificativas contrárias ao estudo da teologia da religião afro, quase sempre tem se atido a argumentações que ha muito perdeu sentido e respeitabilidade como a “inviolabilidade” da transmissão oral do conhecimento ou da pedagogia intramuros dos terreiros/as. Procedimento que provocado denuncias de cárcere privado, motivando com isso diligências policiais e dos Conselhos Tutelares, sobretudo, quando as iniciações envolvem crianças.
Esquecem-se os/as defensores/as da oralidade e contrários ao estudo teológico da religião afro, que o rigor teórico com que no passado era seguido à risca a dinâmica da oralidade na educação iniciática, há muito caiu por terra. Como tem dito Iya Omindarewá, a “defesa” hoje de tais “princípios”, mais esconde debilidade do que seriedade na manutenção da Tradição. Em nome de segredos inexistentes no processo iniciático, estão em jogo, outros interesses que não a sabedoria, a probidade religiosa ou a senioridade iniciática. Há quem alerte para a “hipertrofia ritual e falência moral”, assim como quem enxerga o candomblé e suas denominações regionais como uma “religião aética”.
“Quando os contrários ao estudo da teologia da religião afro corroboram com a discriminação à Religião de Matriz Africana e Afro-Brasileira”, essa hipótese poderia se se tornasse em um projeto acadêmico, as pesquisas tanto empírica como bibliográfica de forma volumosa comprovaria a hipótese irrefutavelmente. Por isso que sem sombras de dívidas a assertiva é essa mesma. As discriminações vêm de fora e são alimentadas pelos desde dentro das Religiões de Matriz Africana e Afro-Brasileira, não restando qualquer dúvida a esse respeito. Como cupim, eles/as (hierarquias, adeptos, etc.,) corroem seu próprio habitat ou lócus consciente, inconscientemente ou por má fé mesmo.
A verdade é que nem o movimento da reafricanização tem conseguido reverter o quadro das discriminações que acometem os adeptos afros. As crianças afrodescendentes sejam elas envolvidas ou não com a religião afro-brasileira são correlacionadas a termos pejorativos atribuídos negativamente às Religiões Afro-Brasileiras.
E como sofrem a camada infanto-juvenil em geral que desprovidas de preconceitos, externam nas escolas seus pertencimentos religiosos afros e dos seus familiares. A mesma se converte em objeto de achincalhes e alvos da intolerância das crianças neopentecostalizadas em função dos seus familiares.
A nossa mais veemente crença é de que o estudo acadêmico e sistematizado da teologia afro, isolada ou comitantemente às ações políticas e jurídicas contra a intolerância religiosa produzirá mudança radical na visão da sociedade com relação à Religião Afro-Brasileira e seus adeptos. Debelando ou iniciando um processo de erradição de toda essa visão negativa que incide contra as Religiões de origem africana.
A tarefa emergencial é a da elaboração de massa crítica acerca da Religião Tradicional Africana, da Religião de Matriz Africana e Afro-Brasileira. E isso no campo da teologia, porque só desta forma se sairá do rol dos charlatões, dos curandeiros e dos que exploram a credulidade pública, tipificado como crime ou ainda muito presente no imaginário da população.
O item VII do art. 5º da Constituição da República Federativa do Brasil diz que: “é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva”. Como sacerdotes e sacerdotisas da Religião Afro-Brasileira podem se habilitar a essa função sem curso pós-médio ou superior?
As instituições militares (Exército, Marinha, Aeronáutica), Hospitais, Presídios, etc., não aceitarão os/as Sacerdotes ou Sacerdotisas afros sem formação acadêmica e/ou mediante a apresentação de diplomas de Ministro de Culto conferidos pelas inúmeras entidades de filiação e de “representação” de adeptos das Religiões de Matriz Africana e Afro-Brasileira.
A saída é o estudo da teologia da Religião Afro-Brasileira porque só desta maneira os Sacerdotes e Sacerdotisas tanto da Umbanda como do Candomblé saião do rol dos charlatães, curandeiros e exploradores/as da credulidade pública.

Curitiba, 30 Outubro de 2008, ano do Centenário da Umbanda,


Fundada em 15 de novembro de 1908.


Prof. Jayro Pereira de Jesus
Fone (41) 8803-5048


____________________________________
1 Texto sem revisão.
2 Mestre em Teologia pelo IEPG da EST, Licenciado em Ciências Religiosas pela PUCPR; editor da Revista Africaxé, Coordenador Nacional do Egbé Òrun Àiyé e do CENARAB, omórìsá

sábado, 9 de agosto de 2008

Teologia da resistência

Professor defende estudo da Teologia Africana como enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa





Por Vanessa Martins. Jornalista, Teóloga, Coordenadora de Mídia do Egbé/RS.



Em palestra realizada na noite de ontem, 23 de julho, em Porto Alegre, o teólogo e filósofo Jayro Olorode Ogyán Kalafor defendeu a formação de teólogos das religiões de matriz africana como uma das formas de resistência a ações de intolerância religiosa e racismo, que assolam estas populações desde o início do processo de escravidão no Brasil. "Desde 1500, diversas teologias foram extremamente danosas para os africanos e afro-descendentes no nosso país", diz ele.
Olorode também afirmou que a Teologia não é uma prerrogativa da "revelação" ou da Igreja Católica, ou seja, todos os que pensam sobre o sagrado, em qualquer cultura, estão fazendo teologia. A primeira definição de teologia, segundo ele, é "fazer poemas sobre o sagrado", o que os africanos já faziam muito antes inclusive do surgimento da Filosofia Grega, tida como pioneira. "Não há nada de original na Filosofia Grega, uma vez que os "pais" da Filosofia tiveram mestres africanos, fato que foi omitido da História oficial. Em se tratando de culturas africanas, Filosofia e Teologia estão indissociadas, já que o "sagrado" é intrínseco a todos os aspectos da vida, conforme a visão de mundo africana. "É o que chamamos de Biomiticidade ou Antropoteogonia, ou seja, o divino está dentro de nós, e nós fazemos parte dele, assim como as plantas, os rios, as pedras, e tudo mais que compõe o Cosmos".
O estudioso também denunciou o que chama de "demonização da religião afro-brasileira", através da associação entre Exu e o Diabo. "O Orixá Exu ou Bará, como é chamado no Rio Grande do Sul, pode ser comparado a Pneuma, Ruah e Espírito Santo. Teologicamente não há diferença entre eles", disse.
Atualmente, a religião africana no Brasil sofre com os ataques das Igrejas Neopentecostais, que vão desde a violência física, através de agressões e invasões de terreiros, até as formas mais sutis de intolerância, como a proposição e aprovação de leis que dificultam o culto aos Orixás, Inkices e Voduns. Um exemplo recente disso, no Estado gaúcho, é a aprovação de uma lei que proíbe o despacho de animais em qualquer espaço da cidade de Porto Alegre. O projeto, apresentado por um vereador evangélico e aprovado pelo prefeito da capital em exercício, também evangélico, está suspenso devido a uma medida judicial em caráter liminar, graças a ação política de religiosos africanistas organizados.



Na oportunidade, o Prof. Jayro repassou os estatutos do Egbé Nacional para os coordenadores do Egbé/RS, lhes delegando a missão de divulgar os princípios teológicos e filosóficos afro-brasileiros aos vivenciadores da religião de matriz africana no Rio Grande do Sul.
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