terça-feira, 23 de setembro de 2008

SEMINÁRIO AFROBAS







SEMINÁRIO AFROBAS.

No sábado de 23 de agosto de 2008 o Egbe compareceu no V Seminário das Religiões Afro-Brasileiras. Um evento realizado pela AFROBAS, onde teve palestras de inúmeros sacerdotes como a Vera de Ossanhã, Volter de Ogum e participações de Jorge Verardi e Cleon de Oxalá. Os assuntos variavam entre o limiar das conseqüências do “Batuque” da antiga com o choque da modernidade. Particularmente evidências mostravam que novas idéias, novos horizontes e remontagem de conceitos, estavam devidamente sendo criticados ou sendo mais ameno analisados. Obviamente o EGBE –RS quando tiver mais em evidência sofrerá um arrebate de criticas mas a estrutura esta sendo criada com fortalecimento e além disso estamos comparecendo em eventos e fazendo eventos, interagindo com a sociedade religiosa e cultural.
Isso tudo fez me lembrar um texto escrito por mim em 2006.

O espaço étnico do Brasil é constituído por várias raças provenientes de vários países, conseqüentemente em nossa fisiologia em nossos conceitos de vida e pensamentos há um emaranhado de raízes étnicas.
Somos uma conjunção variada de etnias de formação oriental e ocidental. Obviamente a soma de tudo isso ocasiona conflitos numa religião de origem milenar, como a nossa o "Batuque" donde vindo da mãe África, espaço que respiravam Orisás, Inkisses e Voduns, onde africanos só tinham suas divindades para adorar, para temer e agradar. O respirar a religião era o conviver, mas a evolução fez o divino atravessar o oceano. Chegando ao Brasil vemos como tudo mudou, convergências de opiniões de como proceder as liturgias em cerimônias é algo corriqueiro, pois até nisso criou-se o livre arbítrio. Cabe o individuo seguir, e saber julgar de forma correta onde exista religião regida com seriedade por um sacerdote de asé existencial ou então cair na malha do destino e se entregar uma casa de “um simples cidadão brasileiro manipulador de energias".
Pùpo Asé!
Eduardo deÒsàla- babalorixá do Ilè Asé Omi Òrìsá
Vice-coordenador EGBE-RS.

Òrisà: só respeita quem tem


Crônica de Vanessa Efunpàdé t’Iyemojá (Jornalista, Coordenadora do Egbé/RS, Omorìsà do Ilè Ogun Onirè e Oyá Niké)


Dizem que as filhas de Iyemojá são rebeldes e eu penso que todo o senso comum tem um fundo de verdade, embora seja filha deste maravilhoso Òrisà! Pois bem, não sei se era por causa da adolescência, mas lá pelos meus 14, 15 anos, eu vivia batendo com as portas lá de casa. Neste caso era por causa da minha mãe, que não me deixava sair TODOS os finais de semana para as baladas, como eu queria.

Um dia eu estava na escola, cabisbaixa, pensando em como a minha mãe era chata, quando uma colega se aproximou perguntando o que eu tinha. “’Tô de cara’ com a minha mãe. Ela é uma chata! Pega no meu pé o tempo todo. Não me deixa sair pras baladas, quer que eu ajude ela o dia todo com a casa, quer que eu diga aonde vou, com quem, que horas volto... é um saco! Não agüento mais!!!”, desabafei. A resposta da minha colega não podia ter me surpreendido mais. Eu, que esperava total apoio e reforço na minha reivindicação, ouvi o seguinte: “Guria, tu nem sabe como eu te invejo. Eu daria tudo para ter uma mãe como a tua. Pelo menos ela mostra que te ama e se preocupa contigo. A minha não quer saber se estou viva ou morta. Se eu saio e não volto pra casa, pra ela tanto faz. Eu não passo de uma sombra. Ninguém percebe minha ausência lá em casa...”. A partir deste dia, minha relação com minha mãe mudou e aprendi uma grande lição: nossos pais nos repreendem porque nos amam e demonstram isto através da proteção.

Contei esta história, um fato real na minha vida, para explicar que, da mesma forma como nos tratam nossos pais consangüíneos ou adotivos, aqui no Ara Òrun, os Òrisàs agem em relação aos seus filhos. Querem ver?

Desde pequena, sempre fui ousada e atrevida, e os corretivos que levava eram proporcionais às minhas travessuras! Uma vez, lá pelos meus oito anos, fiz um “teste”. Queria saber se era verdade essa história de que as pessoas (elegùn) não sabem que manifestam seu Òrisà. Então, fiz uma pergunta a uma irmã minha sobre um fato que ela não presenciou porque estava “ocupada”. Queria saber se ela ia “lembrar” de ter testemunhado o ocorrido. Ela, obviamente, ficou confusa e não soube me responder. E eu, feliz com o sucesso da minha “pesquisa” – que certamente já tinha realizado com outras “vítimas”. Pode ter sido coincidência, mas no dia seguinte acordei com a língua tão inchada que só conseguia beber água! Realizei outros “testes” ao longo da infância e adolescência, sempre seguidos de um grande “laço”.

Porém, eu não entendia, e manifestava a minha inconformidade em relação a outras pessoas, que desrespeitavam violentamente os Òrisàs e... nada lhes acontecia. Por que os Òrisàs eram imperdoáveis comigo e com os outros eram indiferentes?

Hoje em dia, cada vez mais vemos religiosos de matriz africana fazendo barbáries em nome da Religião, afrontando diretamente as divindades, e me parece que há um sentimento coletivo de “impunidade”. Não acredito que haja uma relação maniqueísta, em que os Òrisàs apliquem castigos, como eu imaginava quando era criança, mas penso que é o resultado dos nossos atos que se materializam em “sanções”, por meio da ação dos Òrisàs.

Mas uma coisa a maturidade me ensinou: assim como minha colega de escola, os religiosos deveriam se preocupar muito se estão cometendo interdições e nenhuma conseqüência surge disto. Esta indiferença do Òrisà em relação ao seu filho tem uma causa e, principalmente, uma conseqüência. Eu, particularmente, quero continuar levando meus corretivos, e agradecendo a Olodumare por saber que meus Òrisàs estão presentes na minha vida, me educando, me corrigindo, me protegendo.

Foto reproduzida do livro Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi.


palestra do prof Norton.



Palestra do prof. Norton

Num modo ilustrativo(projeção de slides), o professor e antropólogo Norton F. Corrêa autor do livro "O Batuque do Rio Grande do Sul" nos agraciou na noite de 14 de agosto de 2008, com uma vasta bagagem de conhecimento constituida num desfile de fotos antigas de vários sacerdotes de nossas religiões de matriz africana, além de curiosidades e situações ritualística, tudo ali preservado em imagens digitalizadas. Imagens até curiosas de imolações, de axêres e inclusive de Orisás ocupados em seus filhos, relatados pelo professor que a seriedade e a confiança é o que tinham os babalorisás e ialorisás, pelo trabalho que ele fazia já naquela época há quase quatro décadas atrás e a qual retratou cada detalhe que obteve em seus estudos. Tudo isso num modo contextual demonstrou aos presentes a enciclopédia milenar de oralidade e magia que vivenciou, aprendeu e interagiu com o "Batuque". Convivendo com antigos sacerdotes como Airton de Xangô, Mãe Moça de Oxum e Mãe Esther de Iemanjá. Realmente o professor obteve grandes conhecimentos não só pelo lado litúrgico mas também no lado humano dos religiosos e o transcorrer do dia a dia de um ilè.

Eduardo de Òsálá - babalorisá do ILè Asé Omi Òrisá.vice-coordenador/ Egbe-rs

sábado, 9 de agosto de 2008

Teologia da resistência

Professor defende estudo da Teologia Africana como enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa





Por Vanessa Martins. Jornalista, Teóloga, Coordenadora de Mídia do Egbé/RS.



Em palestra realizada na noite de ontem, 23 de julho, em Porto Alegre, o teólogo e filósofo Jayro Olorode Ogyán Kalafor defendeu a formação de teólogos das religiões de matriz africana como uma das formas de resistência a ações de intolerância religiosa e racismo, que assolam estas populações desde o início do processo de escravidão no Brasil. "Desde 1500, diversas teologias foram extremamente danosas para os africanos e afro-descendentes no nosso país", diz ele.
Olorode também afirmou que a Teologia não é uma prerrogativa da "revelação" ou da Igreja Católica, ou seja, todos os que pensam sobre o sagrado, em qualquer cultura, estão fazendo teologia. A primeira definição de teologia, segundo ele, é "fazer poemas sobre o sagrado", o que os africanos já faziam muito antes inclusive do surgimento da Filosofia Grega, tida como pioneira. "Não há nada de original na Filosofia Grega, uma vez que os "pais" da Filosofia tiveram mestres africanos, fato que foi omitido da História oficial. Em se tratando de culturas africanas, Filosofia e Teologia estão indissociadas, já que o "sagrado" é intrínseco a todos os aspectos da vida, conforme a visão de mundo africana. "É o que chamamos de Biomiticidade ou Antropoteogonia, ou seja, o divino está dentro de nós, e nós fazemos parte dele, assim como as plantas, os rios, as pedras, e tudo mais que compõe o Cosmos".
O estudioso também denunciou o que chama de "demonização da religião afro-brasileira", através da associação entre Exu e o Diabo. "O Orixá Exu ou Bará, como é chamado no Rio Grande do Sul, pode ser comparado a Pneuma, Ruah e Espírito Santo. Teologicamente não há diferença entre eles", disse.
Atualmente, a religião africana no Brasil sofre com os ataques das Igrejas Neopentecostais, que vão desde a violência física, através de agressões e invasões de terreiros, até as formas mais sutis de intolerância, como a proposição e aprovação de leis que dificultam o culto aos Orixás, Inkices e Voduns. Um exemplo recente disso, no Estado gaúcho, é a aprovação de uma lei que proíbe o despacho de animais em qualquer espaço da cidade de Porto Alegre. O projeto, apresentado por um vereador evangélico e aprovado pelo prefeito da capital em exercício, também evangélico, está suspenso devido a uma medida judicial em caráter liminar, graças a ação política de religiosos africanistas organizados.



Na oportunidade, o Prof. Jayro repassou os estatutos do Egbé Nacional para os coordenadores do Egbé/RS, lhes delegando a missão de divulgar os princípios teológicos e filosóficos afro-brasileiros aos vivenciadores da religião de matriz africana no Rio Grande do Sul.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Batuque & Neoliberalismo

O SACERDOTE AFRICANISTA NUM CONTEXTO NEOLIBERAL*




___________________________
Hendrix de Orumiláia é Omòrìsà, Coordenador do Egbé Òrun Àiyé/RS, Professor de História, integrante do GT NEGROS e do CEDRAB e militante do Movimento Negro e contra a intolerância religiosa.


Àgo ye égbon!


O que mais se critica atualmente são os babalorixás e yalorixás que cobram por seus serviços. É de comum acordo entre os praticantes da religião africana, que seus sacerdotes não deveriam, cobrar uma consulta ou trabalho feito para alguém. Entretanto, quase não se tem notícia dos que não cobram.
Conversando com colegas do curso de História, na FAPA, ouço críticas parecidas e até controversas. Certa vez um colega contestou a cobrança, afinal a religião não era para ser comunitária? Noutro dia outra colega, demonstrando intransigência, me perguntou como pode uma pessoa pobre ajudar alguém, se não consegue nem mesmo ajudar a si própria? Só que pouco antes disso ela afirmava que “um pai-de-santo que cobra por seus serviços não merece credibilidade.” Em seguida ela disparou: são todos charlatães! Indagada sobre a generalização, ela corrige: “... uns 80 porcento são!”
Afinal um sacerdote deve ou não viver da religião? A resposta é sim! O sacerdócio é uma profissão como qualquer outra. Os padres vivem da igreja, assim como os pastores, rabinos e gurus. Não há argumentos convincentes para o não exercício do sacerdócio como uma forma de ganhar a vida.
A caridade nunca fez parte da ideologia dos sacerdotes africanos. A noção de cobrança e pagamento sempre existiu no fundamento da religião. A diferença está na espécie de pagamento. Os súditos iorubás sempre pagaram tributos ao seu rei. Este, por sua vez, devolvia esses tributos em forma de grandes banquetes públicos em homenagem aos orixás. Exatamente como fazemos hoje nas festas de batuque.
O sacerdote africanista representa, em Porto Alegre, a aglutinação desses dois cargos africanos: o sacerdote e o rei. Como sacerdote ele empregará os conhecimentos religiosos que possui na ajuda às pessoas. Como rei ele devolverá os “tributos” cobrados por esses serviços em forma de siré aos orixás.
O princípio espírita de caridade foi introduzido no pensamento de babalorixás e yalorixás através de seu envolvimento com a umbanda. Hoje contemplamos sacerdotes que praticam tanto o africanismo quanto a umbanda em seus terreiros, fazendo uma miscelânea de dogmas e conceitos que acabam por confundi-lo e aos seus seguidores.
O neoliberalismo é a ideologia que justifica e defende os princípios do capitalismo, baseado na propriedade privada, na liberdade de empresa, cujo objetivo fundamental é o lucro individual, constituindo-se em expressão máxima do individualismo. Essa doutrina foi introduzida no Brasil a partir do governo Collor e ganhou força no governo FHC. Os sacerdotes de hoje, inseridos nesse contexto econômico, buscam o que qualquer brasileiro tem como meta: o enriquecimento.
A busca pelo acúmulo de capital ou lucro é comum na sociedade brasileira, mas quando se trata de pais ou mães-de-santo a discussão se eleva às dimensões filosóficas. Ou seja, “todo o mundo pode ganhar dinheiro com o que faz, exceto os babalorixás e yalorixás”.
Vamos refletir um pouco: um dos conceitos básicos capitalistas é que a pessoa vende sua força de trabalho para alguém que paga por esse serviço. Se inserirmos esse conceito nas religiões africanas, verificamos que o sacerdote é quem vende sua força de trabalho e o cliente é o contratante que paga por esse serviço. Cada um sabe o valor que tem e cobra o que acha justo pelo seu trabalho. Da mesma forma o cliente pagará o que achar justo de acordo com aquilo que ele procura.
O sacerdote africanista não tem que ser caridoso, na acepção usual da palavra. O que se faz necessário nos dias de hoje é uma consciência social. Ele deve participar ativamente da promoção de uma sociedade igualitária, onde o princípio da coletividade e da verdadeira democracia seja a pauta. Deve se engajar na luta contra o racismo, a intolerância religiosa, a segregação, questões tão evidentes nas sociedades cujo sistema político e econômico é o neoliberalismo.


Púpò àse gbogbo!

_________________________________

* Artigo publicado no Jornal Aruanda. Edição 0A. Enebe Editora Ltda. Outubro/2005. Pág. 02

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...