sábado, 9 de agosto de 2008

Teologia da resistência

Professor defende estudo da Teologia Africana como enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa





Por Vanessa Martins. Jornalista, Teóloga, Coordenadora de Mídia do Egbé/RS.



Em palestra realizada na noite de ontem, 23 de julho, em Porto Alegre, o teólogo e filósofo Jayro Olorode Ogyán Kalafor defendeu a formação de teólogos das religiões de matriz africana como uma das formas de resistência a ações de intolerância religiosa e racismo, que assolam estas populações desde o início do processo de escravidão no Brasil. "Desde 1500, diversas teologias foram extremamente danosas para os africanos e afro-descendentes no nosso país", diz ele.
Olorode também afirmou que a Teologia não é uma prerrogativa da "revelação" ou da Igreja Católica, ou seja, todos os que pensam sobre o sagrado, em qualquer cultura, estão fazendo teologia. A primeira definição de teologia, segundo ele, é "fazer poemas sobre o sagrado", o que os africanos já faziam muito antes inclusive do surgimento da Filosofia Grega, tida como pioneira. "Não há nada de original na Filosofia Grega, uma vez que os "pais" da Filosofia tiveram mestres africanos, fato que foi omitido da História oficial. Em se tratando de culturas africanas, Filosofia e Teologia estão indissociadas, já que o "sagrado" é intrínseco a todos os aspectos da vida, conforme a visão de mundo africana. "É o que chamamos de Biomiticidade ou Antropoteogonia, ou seja, o divino está dentro de nós, e nós fazemos parte dele, assim como as plantas, os rios, as pedras, e tudo mais que compõe o Cosmos".
O estudioso também denunciou o que chama de "demonização da religião afro-brasileira", através da associação entre Exu e o Diabo. "O Orixá Exu ou Bará, como é chamado no Rio Grande do Sul, pode ser comparado a Pneuma, Ruah e Espírito Santo. Teologicamente não há diferença entre eles", disse.
Atualmente, a religião africana no Brasil sofre com os ataques das Igrejas Neopentecostais, que vão desde a violência física, através de agressões e invasões de terreiros, até as formas mais sutis de intolerância, como a proposição e aprovação de leis que dificultam o culto aos Orixás, Inkices e Voduns. Um exemplo recente disso, no Estado gaúcho, é a aprovação de uma lei que proíbe o despacho de animais em qualquer espaço da cidade de Porto Alegre. O projeto, apresentado por um vereador evangélico e aprovado pelo prefeito da capital em exercício, também evangélico, está suspenso devido a uma medida judicial em caráter liminar, graças a ação política de religiosos africanistas organizados.



Na oportunidade, o Prof. Jayro repassou os estatutos do Egbé Nacional para os coordenadores do Egbé/RS, lhes delegando a missão de divulgar os princípios teológicos e filosóficos afro-brasileiros aos vivenciadores da religião de matriz africana no Rio Grande do Sul.

Um comentário:

Jayro disse...

A capacidade de síntese da Coordenadora de Mídia do Egbé/RS é impressionanmte. Efunpadè (Vanessea) você é uma das jovens religiosa afro que deveria se multiplicar aos montes. Parabéns aos membros do Egbé/Rs que ele tenha vida longa, longuissíma. O artigo está excelente. Para compreens~çao dos leitos, o texto está pedagógica e didaticamente excelente.

Muito axé

Prof. Jayro Pereira

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